Artrite Reumatoide
Estudo abrangente sobre artrite reumatoide, cobrindo patogênese, fisiopatologia, autoanticorpos e tratamento para estudantes de medicina.
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- Artrite Reumatoide (AR)
- Doença inflamatória crônica autoimune caracterizada por sinovite persistente e destruição articular progressiva mediada por autoanticorpos.
- Predisposição genética na AR
- Forte associação com alelos HLA-DRB1 que compartilham a sequência de aminoácidos conhecida como epítopo compartilhado.
- Fatores ambientais principais
- Tabagismo e infecções periodontais por Porphyromonas gingivalis que induzem estresse oxidativo e citrulinização de proteínas teciduais.
- Citrulinização de proteínas
- Conversão do aminoácido arginina em citrulina pela enzima PAD, gerando neoantígenos reconhecidos como estranhos pelo sistema imune.
- Anti-CCP (ACPA)
- Autoanticorpo direcionado a peptídeos citrulinados com alta especificidade (>95%) e valor prognóstico de doença articular erosiva.
- Fator Reumatoide (FR)
- Autoanticorpo (geralmente IgM) direcionado contra a porção Fc da imunoglobulina IgG humana, facilitando a formação de imunocomplexos.
- Apresentação de antígenos na AR
- Células dendríticas e macrófagos apresentam peptídeos citrulinados a linfócitos T CD4+ via moléculas HLA de classe II nos linfonodos.
- Papel das células Th1 e Th17
- Linfócitos T ativados que migram para a sinóvia e secretam citocinas pró-inflamatórias como IFN-gama, TNF-alfa, IL-17 e IL-22.
- TNF-alfa na patogênese
- Citocina central que estimula a proliferação sinovial, ativação de macrófagos, liberação de outras citocinas e expressão de moléculas de adesão endotelial.
- Interleucina-1 (IL-1)
- Atua sinergicamente com o TNF-alfa na ativação de condrócitos e sinoviócitos para liberação de metaloproteinases e destruição de cartilagem.
- Interleucina-6 (IL-6)
- Estimula a síntese hepática de proteínas de fase aguda (PCR), diferenciação de células B e diferenciação de osteoclastos mediada por RANKL.
- Formação do Pannus
- Tecido de granulação fibrovascular espesso e hiperplásico formado por sinoviócitos proliferados, macrófagos e neovascularização local.
- Sinoviócitos tipo fibroblasto (FLS)
- Células da camada de revestimento sinovial que adquirem fenótipo invasivo semelhante ao tumoral, degradando ativamente a matriz extracelular.
- Metaloproteinases da matriz (MMPs)
- Enzimas proteolíticas (como MMP-1, MMP-3 e MMP-13) liberadas por sinoviócitos e condrócitos que clivam colágeno tipo II e proteoglicanos.
- Via RANKL / RANK
- RANKL produzido por linfócitos T e osteoblastos liga-se ao RANK nos pré-osteoclastos, desencadeando osteoclastogênese e erosão óssea marginal.
- Angiogênese na sinovite
- Processo induzido por VEGF e hipóxia tecidual que sustenta o aporte nutricional ao pannus em proliferação e facilita migração leucocitária.
- Padrão de acometimento articular
- Poliartrite simétrica e aditiva acometendo preferencialmente pequenas articulações das mãos (MCF e IFP), punhos e pés (MTF).
- Rigidez matinal
- Sensação de travamento articular decorrente do acúmulo noturno de edema inflamatório perissinovial, durando habitualmente mais de 1 hora.
- Articulações tipicamente poupadas
- Interfalângicas distais (IFD) e o esqueleto axial, exceto pela articulação atlantoaxial na coluna cervical.
- Subluxação atlantoaxial
- Erosão ligamentar do processo odontoide pela sinovite crônica, com risco grave de compressão medular e instabilidade cervical.
- Deformidade em botoeira (Boutonnière)
- Flexão da articulação interfalângica proximal combinada com hiperextensão da interfalângica distal por ruptura da banda extensora central.
- Deformidade em pescoço de cisne
- Hiperextensão da interfalângica proximal com flexão da interfalângica distal por encurtamento do tendão interósseo e frouxidão volar.
- Desvio ulnar dos dedos
- Deslocamento dos tendões extensores e enfraquecimento das cápsulas metacarpofalângicas permitindo subluxação e tração lateral dos dedos.
- Nódulos reumatoides
- Granulomas inflamatórios subcutâneos com necrose fibrinoide central e histiócitos em paliçada, associados a títulos elevados de FR/ACPA.
- Síndrome de Felty
- Tríade rara e grave composta por artrite reumatoide soropositiva, neutropenia periférica e esplenomegalia com risco aumentado de infecções.
- Doença pulmonar intersticial na AR
- Infiltração inflamatória alveolar e fibrose pulmonar progressiva (geralmente padrão PIU), mais frequente em tabagistas soropositivos.
- Vasculite reumatoide
- Inflamação necrotizante de vasos de pequeno e médio calibre por deposição de imunocomplexos, cursando com úlceras de pele e mononeurite múltipla.
- Risco cardiovascular acelerado
- A inflamação sistêmica crônica promove disfunção endotelial precoce, oxidação da LDL e aterosclerose acelerada independente de fatores clássicos.
- Critérios classificatórios ACR/EULAR 2010
- Pontuação baseada em quatro domínios: envolvimento articular, sorologia (FR/ACPA), provas de fase aguda (PCR/VHS) e duração dos sintomas (≥6 semanas).
- Proteína C-Reativa (PCR) e VHS
- Biomarcadores séricos de inflamação sistêmica induzidos por IL-6, úteis para monitorar atividade e gravidade da doença articular.
- Achados radiográficos precoces
- Aumento de partes moles e osteopenia periarticular justa-articular secundária à hiperemia local e ativação osteoclástica.
- Achados radiográficos tardios
- Erosões ósseas marginais nos locais de reflexão sinovial, redução concêntrica do espaço articular e anquilose óssea.
- Análise do líquido sinovial na AR
- Líquido inflamatório (tipo II), amarelo-turvo, com 2.000 a 50.000 leucócitos/mm3 com predomínio de neutrófilos e sem microcristais.
- Estratégia Treat-to-Target (T2T)
- Abordagem sistemática com ajustes periódicos de fármacos até alcançar remissão clínica ou baixa atividade de doença mensurada por escores.
- Metotrexato (MTX)
- DMARD convencional de primeira linha; inibe a di-hidrofolato redutase e eleva a adenosina extracelular, exercendo potente ação anti-inflamatória.
- Leptomeningite e toxicidade por MTX
- Efeitos adversos evitados pela suplementação profilática obrigatória de ácido fólico (hepatotoxicidade, mielossupressão e estomatite).
- Leflunomida
- DMARD convencional que inibe a enzima di-hidroorotato desidrogenase, bloqueando a síntese de novo de pirimidinas em linfócitos T proliferantes.
- Sulfassalazina
- DMARD convencional clivado por bactérias colônicas em 5-ASA e sulfapiridina, indicado em formas leves ou combinado a outros agentes.
- Hidroxicloroquina
- Antimalárico que eleva o pH endossomal inibindo a apresentação antigênica; exige triagem periódica para retinopatia e maculopatia.
- Inibidores do TNF (Anti-TNF)
- Biológicos (ex.: infliximabe, adalimumabe, etanercepte) que neutralizam a inflamação; exigem rastreio prévio obrigatório de tuberculose latente.
- Inibidores de IL-6 (ex.: Tocilizumabe)
- Biológico que bloqueia o receptor de IL-6 soluble e de membrana, normalizando rapidamente a PCR e controlando a atividade sinovial sistêmica.
- Inibidores de coestimulação (Abatacepte)
- Proteína de fusão CTLA-4-Ig que se liga a CD80/CD86 nas APCs, impedindo a ligação com CD28 e bloqueando o segundo sinal de ativação do linfócito T.
- Rituximabe
- Anticorpo monoclonal anti-CD20 que depleta linfócitos B periféricos, reduzindo a apresentação de antígenos e a produção de autoanticorpos.
- Inibidores de JAK (ex.: Tofacitinibe)
- Pequenas moléculas sintéticas que bloqueiam a via intracelular JAK-STAT, inibindo a transcrição gênica de múltiplas citocinas inflamatórias.
- Corticoterapia na fase inicial (Bridge)
- Uso temporário de baixas doses de glicocorticoides como ponte anti-inflamatória rápida até o início de ação terapêutica dos DMARDs.
- Aderência sinovial e destruição da cartilagem
- Ocorre por migração focal dos sinoviócitos do pannus sobre a cartilagem articular com liberação pericelular de enzimas que degradam colágeno tipo II.
- Cisto de Baker
- Herniação da cápsula posterior do joelho secundária ao excesso de líquido sinovial articular sob pressão, cujo rompimento mimetiza trombose venosa profunda.
- Acometimento ocular na AR
- Manifesta-se principalmente por ceratoconjuntivite seca (associada à síndrome de Sjögren secundária), episclerite e esclerite necrotizante grave.
- Acometimento renal na AR
- Frequentemente decorrente de toxicidade medicamentosa (AINEs) ou deposição glomerular de proteína sérica amiloide A (Amiloidose secundária AA).
- Índice de Atividade da Doença (DAS28)
- Escore composto que avalia contagem de articulações dolorosas e edemaciadas em 28 articulações, PCR/VHS e avaliação global do paciente.