Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)
Estudo completo sobre o Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), cobrindo etiologia, fisiopatologia, manifestações clínicas, exames e tratamento para estudantes de medicina e residentes.
Cartões · 60
- O que é Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)?
- Doença inflamatória autoimune crônica e multissistêmica, caracterizada pela produção de autoanticorpos e formação de imunocomplexos que danificam tecidos.
- Etiologia do LES
- Multifatorial, resultante da interação de fatores genéticos (genes HLA-DR2 e HLA-DR3), hormonais (estrogênio) e ambientais (radiação UV, infecções e tabagismo).
- Fisiopatologia básica do LES
- Perda de autotolerância celular leva à apoptose defeituosa, acúmulo de material nuclear, produção de autoanticorpos e depósito de imunocomplexos com ativação do complemento.
- Manifestações cutâneas clássicas
- Rash malar em asa de borboleta (poupa o sulco nasolabial), lesões discoides com cicatrizes atróficas e fotossensibilidade intensa.
- Manifestações musculoesqueléticas
- Artrite poliarticular não erosiva, tipicamente simétrica, e a Artropatia de Jaccoud (deformidades redutíveis sem destruição óssea).
- Nefrite lúpica
- Manifestação renal grave com glomerulonefrite mediada por imunocomplexos, podendo causar proteinúria, hematúria, hipertensão e insuficiência renal.
- Autoanticorpos: FAN e Anti-DNA dupla fita
- FAN é o teste de triagem mais sensível (positivo em >95% dos casos); o Anti-DNA nativo (dsDNA) é altamente específico e correlaciona-se com atividade de nefrite.
- Autoanticorpo Anti-Sm
- O anticorpo mais específico para LES, embora presente em apenas 20% a 30% dos pacientes, crucial para confirmar o diagnóstico.
- Critérios diagnósticos (EULAR/ACR 2019)
- Exige FAN positivo (≥ 1:80) como critério de entrada obrigatório, somado a uma pontuação de pelo menos 10 pontos em domínios clínicos e imunológicos.
- Tratamento de base e indução de remissão
- Hidroxicloroquina é indicada para todos os pacientes salvo contraindicações; glicocorticoides e imunossupressores (como micofenolato ou ciclofosfamida) tratam formas graves.
- Padrão de FAN mais associado ao Anti-DNA nativo
- Padrão nuclear pontilhado pleomórfico ou nuclear homogêneo na imunofluorescência indireta.
- Autoanticorpo Anti-Ro/SSA no LES
- Associado a lúpus cutâneo subagudo, fotossensibilidade, lúpus neonatal (bloqueio atrioventricular congênito) e síndrome de Sjögren secundária.
- Autoanticorpo Anti-La/SSB no LES
- Geralmente ocorre em conjunto com o anti-Ro/SSA e reduz o risco de nefrite lúpica grave, comum no lúpus neonatal e cutâneo subagudo.
- Autoanticorpo Anti-RNP no LES
- Marcador da Doença Mista do Tecido Conjuntivo (quando em altos títulos), mas presente em 30% a 40% do LES, associado a Raynaud e miosite.
- Autoanticorpo Anti-histona
- Marcador clássico do Lúpus Induzido por Drogas (positivo em >95% dos casos induzidos por medicamentos como procainamida e hidralazina).
- Autoanticorpo Anti-P ribossomal
- Associado a manifestações neuropsiquiátricas graves, especialmente psicose lúpica e depressão refratária, além de hepatite lúpica.
- Consumo de complemento no LES
- A queda dos níveis de C3 e C4 reflete a ativação da via clássica por imunocomplexos e indica atividade inflamatória da doença, principalmente nefrite.
- Classificação da Nefrite Lúpica (ISN/RPS): Classe I
- Glomerulonefrite mesangial mínima: microscopia óptica normal, mas depósitos imunes visíveis apenas à imunofluorescência.
- Classificação da Nefrite Lúpica (ISN/RPS): Classe II
- Glomerulonefrite mesangial proliferativa: hipercelularidade mesangial com depósitos imunes, geralmente com proteinúria e hematúria leves.
- Classificação da Nefrite Lúpica (ISN/RPS): Classe III
- Glomerulonefrite proliferativa focal: acomete menos de 50% dos glomérulos; forma ativa, agressiva e com risco de perda de função renal.
- Classificação da Nefrite Lúpica (ISN/RPS): Classe IV
- Glomerulonefrite proliferativa difusa: a forma mais comum e grave (>50% dos glomérulos afetados), cursa com lesões em alça de arame e síndrome nefrítica/nefrótica.
- Classificação da Nefrite Lúpica (ISN/RPS): Classe V
- Glomerulonefrite membranosa: espessamento difuso da membrana basal glomerular, manifestando-se tipicamente com síndrome nefrótica franca.
- Classificação da Nefrite Lúpica (ISN/RPS): Classe VI
- Glomerulonefrite esclerosante avançada: esclerose de mais de 90% dos glomérulos, indicando dano renal crônico e irreversível.
- Indicações de biópsia renal no LES
- Proteinúria persistente ≥ 0,5 g/24h, sedimento urinário ativo (hematúria dismórfica, cilindros celulares) ou declínio inexplicado da taxa de filtração glomerular.
- Tratamento de indução da Nefrite Lúpica proliferativa (Classes III e IV)
- Pulsoterapia com metilprednisolona associada a Micofenolato de Mofetila (MMF) ou Ciclofosfamida em baixas doses (protocolo Euro-Lupus).
- Tratamento de manutenção da Nefrite Lúpica
- Micofenolato de mofetila ou Azatioprina associados a doses baixas de prednisona desmamadas progressivamente, por pelo menos 3 a 5 anos.
- Toxicidade retiniana por Hidroxicloroquina
- Maculopatia em 'olho de boi'; monitorada com campimetria visual computadorizada e tomografia de coerência óptica (OCT) anuais após 5 anos de uso.
- Dose terapêutica diária máxima de Hidroxicloroquina
- Não deve exceder 5 mg/kg/dia de peso real para minimizar o risco de toxicidade na retina.
- Mecanismo de ação do Belimumabe no LES
- Anticorpo monoclonal que inibe o estimulador de linfócitos B (BAFF/BLyS), reduzindo a sobrevida e diferenciação dos linfócitos B autorreativos.
- Mecanismo de ação do Anifrolumabe no LES
- Anticorpo monoclonal bloqueador do receptor do interferon tipo I (IFNAR1), indicado para formas moderadas a graves com manifestações cutâneas e articulares.
- Manifestações hematológicas: Anemia Hemolítica Autoimune (AHAI)
- Coombs direto positivo com presença de esferócitos, reticulocitose, aumento de bilirrubina indireta e queda de haptoglobina; tratada com corticoides em dose alta.
- Púrpura Trombocitopênica Imunológica (PTI) no LES
- Destruição plaquetária periférica mediada por autoanticorpos; plaquetopenia grave (<20.000/mm³) requer corticoterapia, imunoglobulina IV ou agonistas de TPO.
- Leucopenia e Linfopenia no LES
- Leucócitos < 4.000/mm³ e linfócitos < 1.000/mm³ em ausência de infecção; linfopenia correlaciona-se com atividade da doença e imunossupressão celular.
- Lúpus Cutâneo Agudo (LCA)
- Lesões eritematosas transitórias e fotossensíveis, como rash malar ou erupção maculopapular generalizada, fortemente ligadas à atividade sistêmica do LES.
- Lúpus Cutâneo Subagudo (LCSA)
- Lesões anulares policíclicas ou psoriasiformes em áreas expostas ao sol; curam sem cicatriz, mas podem deixar despigmentação; ligado ao Anti-Ro.
- Lúpus Cutâneo Crônico (LCC) / Discoide
- Placas eritematosas infiltradas com hiperceratose folicular, descamação e atrofia cicatricial central com alopecia cicatricial no couro cabeludo.
- Lúpus eritematoso tumidus
- Forma rara de lúpus cutâneo crônico caracterizada por placas eritematosas edematosas suculentas, sem escamas ou cicatrizes, altamente fotossensível.
- Alopecia no LES: não cicatricial vs cicatricial
- A alopecia difusa não cicatricial (eflúvio) indica atividade lúpica sistêmica; a alopecia associada a lesões discoides é destrutiva e cicatricial.
- Úlceras orais no LES
- Tipicamente indolores, acometem palato duro ou mucosa jugal e surgem com frequência durante episódios de exacerbação clínica.
- Manifestações pleurais do LES
- Pleurite com dor pleurítica e derrame pleural exsudativo (glicose normal ou discretamente reduzida, complemento baixo e presença de FAN no líquido).
- Manifestações pericárdicas no LES
- Pericardite é a queixa cardíaca mais comum; manifesta-se com dor torácica postural, atrito pericárdico e alterações difusas de ST-T no ECG.
- Endocardite de Libman-Sacks
- Endocardite verrucosa não bacteriana caracterizada por vegetações estéreis nas valvas mitral e aórtica, fortemente ligada à síndrome antifosfolípide.
- Miocardite lúpica
- Manifestação cardíaca rara e grave com insuficiência cardíaca de início rápido, arritmias e taquicardia desproporcional à febre; tratada com imunossupressão agressiva.
- Manifestações neuropsiquiátricas: Convulsões e Psicose
- Incluídas nos critérios diagnósticos formais quando não atribuíveis a causas metabólicas, farmacológicas ou infecciosas secundárias.
- Mielite transversa lúpica
- Déficit neurológico motor e sensitivo súbito com disfunção esfincteriana; emergência médica tratada com pulsoterapia corticoide e plasmaférese ou ciclofosfamida.
- Neuropatia periférica no LES
- Pode se apresentar como mononeurite múltipla ou polineuropatia simétrica distal decorrente de vasculite dos vasa nervorum.
- Síndrome de ativação macrofágica (SAM) no LES
- Complicação grave caracterizada por febre persistente, citopenias, hepatoesplenomegalia, hiperferritinemia extrema, hipertrigliceridemia e hemofagocitose medular.
- Associação entre LES e Síndrome Antifosfolípide (SAF)
- Cerca de 20% a 30% dos pacientes com LES desenvolvem SAF, manifestando tromboses arteriais/venosas e perdas gestacionais de repetição.
- Tratamento de trombose em paciente com LES e SAF
- Anticoagulação plena a longo prazo com antagonistas da vitamina K (varfarina) com alvo de INR entre 2,0 e 3,0; DOACs não são recomendados se triplo-positivos.
- Lúpus Neonatal
- Condição passiva transitória mediada por anticorpos maternos Anti-Ro e Anti-La; causa rash cutâneo autolimitado e bloqueio atrioventricular total irreversível.
- Manejo da gestante com LES
- A gestação deve ser planejada após 6 meses de remissão clínica; manter hidroxicloroquina e trocar drogas teratogênicas para azatioprina.
- Drogas contraindicadas na gestação de pacientes com LES
- Metotrexato, ciclofosfamida e micofenolato de mofetila devido à embriopatia grave e teratogenicidade comprovada.
- Uso de aspirina em baixa dose na gestação com LES
- Iniciada a partir do primeiro trimestre para prevenir pré-eclâmpsia e eventos trombóticos vasculares placentários.
- Diferença entre reativação de nefrite e pré-eclâmpsia na gestação
- Nefrite ativa cursa com sedimento urinário ativo (cilindros, hematúria dismórfica), queda de C3/C4 e anti-DNA elevado; pré-eclâmpsia cursa com ácido úrico alto e enzimas hepáticas alteradas sem consumo de complemento.
- Lúpus Induzido por Drogas (LID): características clínicas
- Quadro mais brando com artralgia, serosite e sintomas constitucionais; raramente causa nefrite ou manifestações neuropsiquiátricas; cessa com a retirada da droga.
- Principais fármacos causadores de Lúpus Induzido por Drogas
- Procainamida, hidralazina, isoniazida, minociclina, anti-TNF-alfa e diltiazem.
- Índice SLEDAI (Systemic Lupus Erythematosus Disease Activity Index)
- Instrumento validado para quantificar atividade global da doença avaliando 24 itens clínicos e laboratoriais ponderados por pontuação.
- Índice SLICC/ACR Damage Index (SDI)
- Mede o dano orgânico cumulativo irreversível presente por pelo menos 6 meses, independente da atividade inflamatória aguda corrente.
- Risco cardiovascular no paciente lúpico
- Aterosclerose acelerada e risco de infarto do miocárdio aumentado em até 50 vezes em mulheres jovens devido à inflamação endotelial crônica.
- Imunizações em pacientes com LES
- Vacinas inativadas (influenza, pneumocócica, COVID-19) são recomendadas; vacinas de vírus vivo atenuado são contraindicadas em vigência de imunossupressão intensa.