Artrite Reumatoide: Clínica e Manejo
Este conjunto aborda a etiologia, fisiopatologia, diagnóstico e manejo clínico da artrite reumatoide para estudantes e profissionais de medicina.
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- Definição de Artrite Reumatoide (AR)
- Doença inflamatória crônica, autoimune e sistêmica, caracterizada por poliartrite periférica simétrica erosiva.
- Epidemiologia: sexo e faixa etária típica
- Mais prevalente em mulheres (proporção 2-3:1), com pico de incidência entre 30 e 55 anos.
- Fator genético mais associado à AR
- Alelos do complexo HLA-DRB1 (especialmente DRB1*04 e *01), conhecidos como epítopo compartilhado.
- Principal fator de risco ambiental modificável
- Tabagismo, que induz citrulinização de proteínas na mucosa respiratória em indivíduos suscetíveis.
- Processo de citrulinização na fisiopatologia
- Conversão enzimática de arginina em citrulina pela PAD, gerando neoantígenos que deflagram autoanticorpos.
- Pannus sinovial
- Tecido de granulação hiperplásico e invasivo formado por sinoviócitos e células inflamatórias que destrói a cartilagem e o osso.
- Citocinas pró-inflamatórias centrais na AR
- TNF-alfa, IL-1 e IL-6, que ativam osteoclastos e perpetuam a inflamação sinovial crônica.
- Mecanismo de erosão óssea na AR
- Estímulo da via RANKL/RANK por linfócitos T e sinoviócitos, promovendo diferenciação e ativação osteoclástica.
- Padrão clássico do acometimento articular
- Poliartrite simétrica, bilateral, crônica (maior que 6 semanas), envolvendo pequenas e grandes articulações.
- Articulações periféricas mais comumente afetadas
- Metacarpofalângicas (MCF), interfalângicas proximais (IFP) e punhos.
- Articulações tipicamente poupadas na AR
- Interfalângicas distais (IFD) e esqueleto axial lombar e torácico.
- Característica da rigidez matinal na AR
- Duração prolongada, habitualmente superior a 30 a 60 minutos, com melhora ao longo do movimento.
- Deformidade em pescoço de cisne
- Hiperextensão da articulação interfalângica proximal com flexão compensatória da interfalângica distal.
- Deformidade em botoeira (Boutonnière)
- Flexão da interfalângica proximal acompanhada de hiperextensão da interfalângica distal.
- Desvio ulnar dos dedos
- Subluxação e desvio dos dedos em direção ulnar ao nível das articulações metacarpofalângicas.
- Cisto de Baker
- Distensão dolorosa da bursa gastrocnêmio-semimembranosa na fossa poplítea devido ao derrame articular.
- Acometimento da coluna cervical na AR
- Subluxação atlantoaxial por frouxidão do ligamento transverso, com risco de compressão medular.
- Nódulos reumatoides subcutâneos
- Lesões nodulares indolores em superfícies extensoras de pressão, associadas a títulos elevados de FR/anti-CCP.
- Manifestações oftalmológicas comuns
- Ceratoconjuntivite seca (Síndrome de Sjögren secundária), episclerite e esclerite necrotizante.
- Manifestações pleuropulmonares da AR
- Pleurite com derrame pleural exsudativo (glicose baixa) e pneumopatia intersticial difusa (PIU/PINE).
- Risco cardiovascular na AR
- Aumentado por aterosclerose acelerada induzida pela inflamação vascular endotelial crônica.
- Síndrome de Felty
- Tríade clínica rara composta por artrite reumatoide grave, neutropenia e esplenomegalia.
- Fator Reumatoide (FR)
- Autoanticorpo (geralmente IgM) direcionado contra a fração Fc da IgG; tem sensibilidade de 70-80% e menor especificidade.
- Anti-CCP (anticorpo antipeptídeo citrulinado cíclico)
- Marcador sorológico altamente específico (>95%) para AR, útil no diagnóstico precoce e prognóstico erosivo.
- Marcadores inflamatórios laboratoriais
- Velocidade de Hemossedimentação (VHS) e Proteína C Reativa (PCR), usados para avaliar atividade inflamatória.
- Análise do líquido sinovial na AR
- Líquido inflamatório (turvo, viscosidade reduzida, leucócitos entre 2.000 e 50.000/mm³ com predomínio PMN).
- Achados radiográficos iniciais na AR
- Aumento de partes moles periarticular e osteopenia justarticular periarticular.
- Achados radiográficos tardios na AR
- Erosões ósseas marginais, redução simétrica do espaço articular, subluxações e anquilose.
- Papel da ultrassonografia e RM no diagnóstico precoce
- Identificam sinovite subclínica e erosões ósseas muito antes da radiografia convencional.
- Critérios ACR/EULAR 2010 para AR
- Classificam pacientes com sinovite clínica em pelo menos 1 articulação; pontuação ≥ 6/10 confirma diagnóstico.
- Diagnóstico diferencial: Osteoartrite
- Dor mecânica, rigidez matinal fugaz (<30 min), ausência de calor local e acometimento de IFD (nódulos de Heberden).
- Diagnóstico diferencial: Lúpus Eritematoso Sistêmico
- Artrite tipicamente não erosiva (Artropatia de Jaccoud deformante reversível) e FAN em altos títulos.
- Diagnóstico diferencial: Artrite Psoriásica
- Poliartrite assimétrica, acometimento de IFD, dactilite ('dedo em salsicha'), onicopatia e placas cutâneas.
- Diagnóstico diferencial: Gota crônica tofácea
- Presença de tofos articulares/subcutâneos e identificação de cristais de urato monossódico na artrocentese.
- Diagnóstico diferencial: Febre de Chikungunya
- Poliartrite aguda simétrica associada a febre alta súbita, exantema e histórico epidemiológico.
- Estratégia 'Treat-to-Target' (T2T)
- Ajuste frequente do tratamento com objetivo de atingir remissão clínica ou baixa atividade de doença.
- Índice de atividade de doença: DAS28
- Escore que calcula articulações dolorosas/edemaciadas (de 28), PCR/VHS e avaliação global do paciente.
- DMARDs/MMCDs convencionais sintéticos (csDMARDs)
- Metotrexato, leflunomida, sulfassalazina e hidroxicloroquina.
- Primeira linha farmacológica para AR
- Metotrexato (MTX) em doses semanais orais ou parenterais, associado a suplementação de ácido fólico.
- Função do ácido fólico no uso de MTX
- Reduz efeitos adversos como estomatite, náuseas, alopecia e toxicidade hepática.
- Papel dos glicocorticoides no tratamento
- Terapia em ponte ('bridge therapy') para alívio rápido inicial enquanto os DMARDs atingem eficácia plena.
- Papel dos AINEs na artrite reumatoide
- Controle sintomático da dor e rigidez a curto prazo; não alteram o curso nem previnem erosões.
- Anti-TNF biológicos usados na AR
- Infliximabe, etanercepte, adalimumabe, golimumabe e certolizumabe pegol.
- Rastreio obrigatório antes de iniciar biológicos
- Triagem para tuberculose latente (PPD ou IGRA com RX de tórax) e sorologias para hepatites B, C e HIV.
- Biológico não anti-TNF: Tocilizumabe
- Anticorpo monoclonal inibidor do receptor da interleucina-6 (anti-IL-6R).
- Biológico não anti-TNF: Abatacepte
- Modulador da coestimulação de linfócitos T (fusão CTLA-4 e fração Fc de IgG1).
- Biológico não anti-TNF: Rituximabe
- Anticorpo monoclonal anti-CD20 que induz depleção transitória de linfócitos B.
- Inibidores de JAK (tsDMARDs)
- Medicamentos sintéticos alvo-específicos orais (ex.: tofacitinibe, baricitinibe, upadacitinibe).
- Critério para progressão para biológico ou anti-JAK
- Falha terapêutica ou toxicidade a csDMARDs em monoterapia e/ou combinação após 3 a 6 meses de uso adequado.
- Reabilitação e terapia não farmacológica
- Fisioterapia para manter amplitude articular e força, terapia ocupacional e proteção articular precoce.