Choque Hipovolêmico
Estudo sobre as causas, os sinais clínicos e as classes do choque hipovolêmico para estudantes de medicina e saúde.
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- Definição de choque hipovolêmico
- Estado de hipoperfusão tecidual decorrente da perda crítica de volume intravascular efetivo.
- Causa mais comum de choque hipovolêmico
- Hemorragia aguda por trauma ou sangramento gastrointestinal maciço.
- Causas não hemorrágicas de choque hipovolêmico
- Desidratação grave por vômitos, diarreia, queimaduras extensas e sequestro para o terceiro espaço.
- Mecanismo compensatório simpático inicial
- Liberação de catecolaminas causando taquicardia e vasoconstrição periférica.
- Choque hipovolêmico Classe I: perda volêmica
- Perda de até 15% da volemia total (até 750 mL em um adulto de 70 kg).
- Choque hipovolêmico Classe I: frequência cardíaca
- Geralmente normal ou com taquicardia discreta (FC < 100 bpm).
- Choque hipovolêmico Classe I: pressão arterial
- Pressão arterial sistólica e diastólica mantidas dentro dos limites normais.
- Choque hipovolêmico Classe I: frequência respiratória
- Frequência respiratória normal (14 a 20 incursões por minuto).
- Choque hipovolêmico Classe I: débito urinário
- Débito urinário preservado (> 30 mL/hora).
- Choque hipovolêmico Classe I: estado mental
- Paciente calmo, alerta ou ligeiramente ansioso.
- Choque hipovolêmico Classe II: perda volêmica
- Perda de 15% a 30% da volemia total (750 a 1500 mL).
- Choque hipovolêmico Classe II: frequência cardíaca
- Taquicardia moderada (FC entre 100 e 120 bpm).
- Choque hipovolêmico Classe II: pressão arterial e de pulso
- Pressão sistólica mantida, pressão diastólica elevada e pressão de pulso diminuída.
- Choque hipovolêmico Classe II: frequência respiratória
- Taquipneia leve a moderada (20 a 30 incursões por minuto).
- Choque hipovolêmico Classe II: débito urinário
- Redução discreta do débito urinário (20 a 30 mL/hora).
- Choque hipovolêmico Classe II: estado mental
- Ansiedade evidente, inquietação ou agitação.
- Choque hipovolêmico Classe III: perda volêmica
- Perda de 30% a 40% da volemia total (1500 a 2000 mL).
- Choque hipovolêmico Classe III: frequência cardíaca
- Taquicardia acentuada (FC entre 120 e 140 bpm).
- Choque hipovolêmico Classe III: pressão arterial
- Hipotensão arterial evidente e descompensação hemodinâmica franca.
- Choque hipovolêmico Classe III: frequência respiratória
- Taquipneia moderada a grave (30 a 40 incursões por minuto).
- Choque hipovolêmico Classe III: débito urinário
- Oligúria marcada (5 a 15 mL/hora).
- Choque hipovolêmico Classe III: estado mental
- Confusão mental, ansiedade grave, torpor ou rebaixamento sensorial.
- Choque hipovolêmico Classe IV: perda volêmica
- Perda superior a 40% da volemia total (> 2000 mL), risco iminente de morte.
- Choque hipovolêmico Classe IV: frequência cardíaca
- Taquicardia extrema (> 140 bpm) ou bradicardia pré-terminal.
- Choque hipovolêmico Classe IV: pressão arterial
- Hipotensão grave e profunda, muitas vezes com pulso periférico imperceptível.
- Choque hipovolêmico Classe IV: frequência respiratória
- Taquipneia intensa (> 35-40 irpm) evoluindo rapidamente para colapso ventilatório.
- Choque hipovolêmico Classe IV: débito urinário
- Anúria completa ou oligúria extrema (< 5 mL/hora).
- Choque hipovolêmico Classe IV: estado mental
- Letargia profunda, estupor ou coma.
- Tempo de enchimento capilar no choque hipovolêmico
- Prolongado (superior a 2 segundos) devido à vasoconstrição periférica.
- Temperatura e aspecto cutâneo
- Pele pálida, fria, pegajosa e com sudorese (diaforese).
- Moteamento cutâneo (livedo)
- Reticulado violáceo na pele resultante da vasoconstrição e hipoperfusão periférica.
- Pressão de pulso estreitada
- Diminuição da diferença entre a PA sistólica e a diastólica por vasoconstrição reflexa.
- Sintoma: sede intensa
- Estimulação osmótica e barorreceptora no hipotálamo devido à hipovolemia.
- Sintoma: astenia e fraqueza
- Redução acentuada da oxigenação muscular e cerebral por baixo débito cardíaco.
- Sinal do turgor cutâneo diminuído
- Retorno lento da pele após pinçamento cutâneo, típico de hipovolemia por desidratação.
- Mucosas no choque hipovolêmico não hemorrágico
- Mucosas orais e conjuntivais secas e desidratadas.
- Acidose láctica no choque hipovolêmico
- Elevação do lactato sérico decorrente do metabolismo celular anaeróbio por hipóxia tecidual.
- Débito cardíaco no choque hipovolêmico
- Diminuído primariamente pela redução drástica do retorno venoso (pré-carga).
- Resistência vascular sistêmica (RVS)
- Aumentada por vasoconstrição adrenérgica reflexa para priorizar órgãos vitais.
- Pressão venosa central (PVC)
- Baixa ou indetectável, refletindo hipovolemia grave e esvaziamento das câmaras direitas.
- Saturação venosa central de oxigênio (SvcO2)
- Geralmente inferior a 70% devido à alta taxa de extração periférica de oxigênio.
- Déficit de bases (base deficit)
- Negativado progressivamente na gasometria, refletindo a gravidade da hipoperfusão.
- Bradicardia paradoxal no choque hemorrágico
- Reflexo de Bezold-Jarisch ativado em depleções extremas de volume, sinal pré-parada.
- Tríade letal no trauma associado a choque hipovolêmico
- Hipotermia, acidose metabólica e coagulopatia.
- Índice de Choque (Shock Index)
- Razão entre frequência cardíaca e PA sistólica (FC / PAS); valor > 0,9 sugere choque oculto.
- Pulso paradoxal ou fraco
- Pulsos periféricos filiformes e de amplitude reduzida por baixo volume sistólico.
- Hipotensão ortostática inicial
- Queda da pressão arterial ou aumento da FC ao assumir a postura ereta, sinal precoce de perda volêmica.
- Hematócrito na hemorragia aguda inicial
- Pode apresentar-se falsamente normal antes da hemodiluição por reposição fluídica.
- Distensão de veias jugulares
- Ausente ou colabada (veias do pescoço planas), indicando ausência de sobrecarga hídrica.
- Estágio de choque irreversível
- Disfunção de múltiplos órgãos e morte celular disseminada resistente a qualquer reposição volêmica.
- Hipotensão permissiva no choque hemorrágico
- Manutenção intencional de PAS entre 80-90 mmHg até o controle cirúrgico para evitar deslocamento de coágulos.
- Fisiopatologia do choque hipovolêmico: pré-carga
- Redução crítica do retorno venoso e da pressão de enchimento ventricular com queda subsequente do volume sistólico.
- Ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA)
- Vasoconstrição mediada por angiotensina II e reabsorção renal de sódio e água estimulada pela aldosterona.
- Liberação de hormônio antidiurético (vasopressina)
- Aumento da permeabilidade nos ductos coletores renais para retenção de água livre e vasoconstrição arteriolar.
- Relação ureia/creatinina plasmática no choque hipovolêmico
- Aumento da relação para valores > 20:1, característico de azotemia pré-renal devido à hipoperfusão glomerular.
- Fração de excreção de sódio (FeNa) no choque hipovolêmico
- FeNa inferior a 1%, indicando avidez tubular renal por sódio preservada frente à hipoperfusão.
- Densidade e osmolaridade urinária na hipovolemia
- Densidade urinária elevada (> 1,020) e osmolaridade urinária alta (> 500 mOsm/kg) devido à retenção hídrica máxima.
- Protocolo de transfusão maciça (PTM): definição clássica
- Transfusão de 10 ou mais concentrados de hemácias em 24 horas ou mais de 4 unidades em 1 hora.
- Proporção hemostática na ressuscitação balanceada
- Administração de concentrado de hemácias, plasma fresco congelado e plaquetas na proporção fixa de 1:1:1.
- Papel do ácido tranexâmico (estudo CRASH-2)
- Antifibrinolítico que reduz a mortalidade se administrado nas primeiras 3 horas do início da hemorragia.
- Alvo de cálcio iônico durante transfusão maciça
- Manutenção do cálcio iônico > 1,1 mmol/L para prevenir coagulopatia por toxicidade do citrato.
- Mecanismo da coagulopatia induzida por citrato
- Quelação do cálcio sérico ionizado pelos conservantes presentes nas bolsas de sangue e plasma.
- Hipotermia na tríade letal: mecanismo de dano
- Inibição enzimática das vias de coagulação e redução da função de adesão e ativação plaquetária.
- Acidose metabólica na tríade letal: consequência funcional
- Depressão da contratilidade miocárdica e redução da atividade catalítica dos complexos de coagulação.
- Coagulopatia traumática aguda (ATC): fisiopatologia
- Disfunção sistêmica primária decorrente de trauma tecidual e hipoperfusão, independente da diluição volêmica.
- Acidose hiperclorêmica associada à solução salina 0,9%
- Desenvolvimento de acidose metabólica com hiato aniônico normal secundária ao excesso de cloreto infundido.
- Papel das soluções cristaloides balanceadas (ex: Ringer Lactato)
- Manutenção do equilíbrio ácido-base e menor incidência de hipercloremia e lesão renal aguda.
- Avaliação por ultrassom point-of-care (POCUS): veia cava inferior
- Veia cava inferior com diâmetro reduzido (< 1,5 cm) e colabamento inspiratório superior a 50%.
- Protocolo eFAST no choque hipovolêmico traumático
- Identificação rápida de líquido livre intra-abdominal, hemotórax e pneumotórax hipertensivo associado.
- Índice de Choque Ajustado pela Idade (SIPA)
- Uso de limites específicos de FC/PAS em crianças e idosos para detecção precoce de choque oculto.
- Efeito do uso prévio de betabloqueadores no choque
- Atenuação da resposta compensatória de taquicardia reflexa, mascarando a severidade da perda volêmica.
- Efeito do uso de inibidores da ECA/BRA no choque
- Bloqueio do mecanismo compensatório renal e vascular, acelerando o desenvolvimento de hipotensão profunda.
- Choque hipovolêmico no paciente idoso
- Menor complacência miocárdica e rigidez vascular, precipitando descompensação hemodinâmica súbita.
- Choque hipovolêmico na gestante: resposta fisiológica
- Hipervolemia fisiológica que mascara sinais de choque até perdas hemorrágicas superiores a 30-35%.
- Posição de Trendelenburg: aplicabilidade clínica
- Não recomendada rotineiramente por elevar pressão intracraniana e comprometer a complacência diafragmática.
- Manobra de elevação passiva das pernas (PLR)
- Autotransfusão transitória de ~300 mL de sangue para predizer a resposta hemodinâmica a volume.
- Choque hemorrágico oculto (compensado)
- Pressão arterial sistólica normal com hiperlactatemia, déficit de bases aumentado ou oligúria inicial.
- Disfunção miocárdica induzida por choque hipovolêmico
- Isquemia subendocárdica decorrente de taquicardia severa prolongada e redução do fluxo sanguíneo coronariano.
- Tromboelastometria rotacional (ROTEM) / Tromboelastografia (TEG)
- Monitorização viscoelástica para guiar reposição hemostática direcionada a fatores específicos de coagulação.
- Indicação de concentrado de complexo protrombínico (CCP)
- Reversão rápida de antagonistas da vitamina K ou suporte a coagulopatia grave refratária.
- Alvo de fibrinogênio no choque hemorrágico grave
- Manutenção dos níveis séricos de fibrinogênio acima de 1,5 a 2,0 g/L (com crioprecipitado ou concentrado).
- Alvo de plaquetas no choque hemorrágico contínuo
- Contagem plaquetária acima de 50.000/mm³ (ou > 100.000/mm³ se houver traumatismo cranioencefálico concomitante).
- Choque por desidratação na cetoacidose diabética (CAD)
- Diurese osmótica induzida por hiperglicemia severa acarretando hipovolemia hiposmolar profunda.
- Choque hipovolêmico no grande queimado: fisiopatologia
- Aumento maciço da permeabilidade capilar sistêmica com extravasamento plasmático nas primeiras 24 horas.
- Fórmula de Parkland para ressuscitação em queimaduras
- Volume = 4 mL de Ringer Lactato x peso (kg) x % área de superfície corporal queimada (metade em 8h).
- Cirurgia de controle de danos (Damage Control Surgery)
- Procedimento cirúrgico abreviado para deter sangramento e contaminação, priorizando estabilização em UTI.
- REBOA (Oclusão com Balão Endovascular da Aorta)
- Técnica endovascular de hemostasia temporária com cateter-balão para colapso hemorrágico infradiafragmático.
- Vasopressores no choque hipovolêmico puro
- Contraindicados como primeira linha; reservados apenas para colapso crítico transitório durante reposição volêmica.
- Lesão pulmonar aguda induzida por transfusão (TRALI)
- Edema pulmonar não cardiogênico e hipoxemia aguda que podem complicar a hemotransfusão maciça.
- Sobrecarga circulatória associada à transfusão (TACO)
- Edema pulmonar cardiogênico resultante de taxa ou volume excessivo de infusão sanguínea.
- Efeito da hipóxia tecidual craniocerebral na hipovolemia
- Agitação psicomotora, confusão e rebaixamento progressivo da consciência por redução do FSC.
- Gradiente venoarterial de pCO2 (Delta pCO2)
- Delta pCO2 > 6 mmHg, indicativo de estagnação do fluxo microvascular tecidual e baixo débito cardíaco.
- Choque hipovolêmico na pancreatite aguda necro-hemorrágica
- Sequestro volumoso de fluidos retroperitoneais e ativação da cascata calicreína-cinina sistêmica.
- Síndrome compartimental abdominal secundária à ressuscitação volêmica
- Pressão intra-abdominal sustentada > 20 mmHg com nova disfunção orgânica após infusão maciça de fluidos.
- Índice de perfusão periférica (IPP) por oximetria
- Redução acentuada (< 0,6) decorrente da vasoconstrição reflexa nos leitos periféricos dos dedos.
- Torniquete tático de extremidades no choque traumático
- Interrupção hemostática mecânica imediata do fluxo arterial em hemorragias exsanguinantes de membros.
- Efeito da hiperventilação compensatória na gasometria
- Redução da PaCO2 arterial numa tentativa de tamponar a acidose metabólica lática subjacente.
- Alteração eletrocardiográfica inicial no choque hipovolêmico
- Taquicardia sinusal associada a achatamento difuso de onda T ou infradesnivelamento de ST por isquemia.
- Disfunção do glicocálix endotelial no choque hemorrágico
- Degradação da barreira endotelial por estresse oxidativo, amplificando o extravasamento e a trombose microvascular.
- Tempo de clareamento do lactato (Lactate Clearance)
- Redução dos níveis basais de lactato em 10% a 20% a cada 2 horas como indicador de ressuscitação bem-sucedida.