Fígado: Anatomia, Imuno e Hepatites
Estudo detalhado da anatomia, histologia e fisiopatologia das hepatites A e B para estudantes de medicina.
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- Localização anatômica do fígado e limites principais
- Fica no hipocôndrio direito e epigástrio, abaixo do diafragma e protegido pelos arcos costais inferiores.
- Tríade portal anatômica: componentes
- Composta por ramo da artéria hepática própria, ramo da veia porta hepática e ducto biliar interlobular.
- Unidade funcional histológica clássica do fígado
- Lóbulo hepático clássico, centrado pela veia centrolobular e delimitado perifericamente pelos tratos portais.
- Ácino de Rappaport e zoneamento hepático
- Mede gradiente de oxigênio: Zona 1 periportal (mais oxigenada), Zona 2 intermediária e Zona 3 centrolobular (mais vulnerável à hipóxia).
- Espaço de Disse: localização e relevância
- Fica entre os hepatócitos e células endoteliais sinusoidais; contém células estreladas que sintetizam colágeno em inflamações crônicas.
- Células de Kupffer: identidade e função
- Macrófagos residentes localizados na luz dos capilares sinusoidais, essenciais para a fagocitose e apresentação de antígenos.
- Estrutura e genoma do Vírus da Hepatite A (HAV)
- Vírus de RNA fita simples de sentido positivo, pertencente à família Picornaviridae, sem envelope lipídico (não envelopado).
- Estrutura e genoma do Vírus da Hepatite B (HBV)
- Vírus envelopado de DNA circular parcialmente fita dupla (família Hepadnaviridae) com transcriptase reversa própria.
- Via principal de transmissão do HAV
- Fecal-oral, principalmente por consumo de água e alimentos contaminados com fezes infectadas ou contato pessoal estreito.
- Vias principais de transmissão do HBV
- Parentérica, sexual e vertical (perinatal), além de compartilhamento de perfurocortantes e contato com sangue contaminado.
- Mecanismo de lesão hepatocelular no HBV: é citopático direto?
- Não, o HBV não é diretamente citopático; o dano celular resulta da resposta imune mediada por linfócitos T citotóxicos (CD8+).
- Mecanismo de agressão hepatocelular no HAV
- Dano hepático imunomediado por linfócitos T CD8+ e células NK contra hepatócitos infectados, sem efeito citopático direto importante.
- Papel dos linfócitos T CD8+ na imunopatologia da hepatite B
- Reconhecem antígenos virais associados ao MHC de classe I nos hepatócitos, liberando perforinas, granzimas e IFN-gama para eliminá-los.
- Mecanismo de cronificação do HBV
- Exaustão dos linfócitos T específicos, tolerância imunológica neonatal e persistência de DNAccc no núcleo hepatocitário.
- O que é o cccDNA na infecção pelo HBV?
- DNA circular covalentemente fechado que se aloja no núcleo celular como um minicromossomo viral, servindo de molde para replicação crônica.
- Possibilidade de cronificação da Hepatite A
- O HAV praticamente nunca cronifica; evolui habitualmente para cura completa com imunidade permanente.
- Achados histológicos comuns na hepatite viral aguda
- Degeneração balonizante dos hepatócitos, infiltrado mononuclear portal e corpúsculos apoptóticos acidófilos de Councilman.
- Corpúsculo de Councilman (ou apoptótico)
- Hepatócito apoptótico retraído, eosinofílico denso e enucleado, típico de necrose celular em hepatites virais agudas.
- Necrose em ponte (bridging necrosis) na histologia hepática
- Necrose hepatocitária confluente conectando espaços porta entre si ou espaços porta à veia centrolobular; sinaliza maior gravidade.
- Hepatócitos em vidro fosco (ground-glass hepatocytes)
- Hepatócitos com citoplasma finamente granular e eosinofílico devido ao acúmulo intracelular maciço de HBsAg na hepatite B crônica.
- Significado clínico do HBsAg
- Antígeno de superfície do HBV; indica presença ativa de infecção (aguda ou crônica) se persistente por mais de 6 meses.
- Significado clínico do Anti-HBs positivo isolado
- Indica imunidade adquirida por vacinação contra o HBV (sem contato prévio com o vírus selvagem).
- Significado de Anti-HBs positivo somado a Anti-HBc total positivo
- Indica cura espontânea de infecção prévia pelo HBV com imunidade conferida por contato natural.
- Significado clínico do Anti-HBc IgM
- Marcador fidedigno de infecção aguda recente pelo HBV ou reagudização grave de infecção crônica.
- Significado de HBeAg positivo
- Indica replicação viral ativa intensa e elevada taxa de infectividade e transmissão do HBV.
- Soroconversão de HBeAg para Anti-HBe
- Sinaliza queda acentuada na replicação viral do HBV e transição frequente para fase de menor infectividade (portador inativo).
- Significado de Anti-HAV IgM
- Indica infecção aguda recente pelo HAV, permanecendo positivo por cerca de 3 a 6 meses após o quadro.
- Significado de Anti-HAV IgG positivo isolado
- Indica imunidade pregressa contra hepatite A decorrente de vacinação ou contato antigo curado.
- Fisiopatologia da icterícia na hepatite aguda
- Inflamação difusa lesa hepatócitos e canalículos, prejudicando captação, conjugação e excreção biliar de bilirrubina, com refluxo para o sangue.
- Fisiopatologia da colúria na hepatite viral
- Excesso de bilirrubina conjugada (hidrossolúvel) extravasa para a circulação sistêmica e é filtrada pelos rins, escurecendo a urina.
- Fisiopatologia da hipocolia ou acolia fecal na fase colestática
- Obstrução canalicular inflamatória impede o fluxo normal de bilirrubina para a luz intestinal, reduzindo a formação de estercobilina.
- Perfil das transaminases na hepatite viral aguda clássica
- Elevação marcante de ALT (TGP) e AST (TGO), frequentemente acima de 10 a 20 vezes o limite superior da normalidade, com ALT tipicamente superior a AST.
- Marcador laboratorial que melhor reflete a função sintética hepática aguda
- Tempo de protrombina (TP) ou RNI, pois avalia fatores de coagulação de meia-vida curta sintetizados no fígado, como o Fator VII.
- Manifestações extra-hepáticas imunomediadas do HBV
- Poliarterite nodosa, glomerulonefrite membranosa e vasculites causadas pela deposição de imunocomplexos circulantes com antígenos virais.
- Hepatite fulminante: definição clínica fundamental
- Insuficiência hepática aguda grave que cursa com coagulopatia (RNI maior ou igual a 1,5) e encefalopatia hepática em fígado previamente sadio.
- Formas atípicas de curso clínico da Hepatite A
- Forma colestática prolongada com prurido intenso e forma recidivante (relapsante) semanas após a recuperação inicial aparente.
- Mutação pré-core do HBV e seu impacto laboratorial
- Impede a tradução de HBeAg apesar de manter alta carga de DNA viral replicante com ALT elevada e sorologia Anti-HBe positiva.
- Caso clínico: Jovem com astenia, colúria e febre após comer frutos do mar
- Quadro clássico sugestivo de Hepatite A aguda; deve-se solicitar sorologia Anti-HAV IgM e perfil de transaminases hepáticas.
- Caso clínico: Paciente com HBV crônico apresenta dor articular e proteinúria
- Suspeita de manifestação extra-hepática imunocomplexo-mediada, como glomerulonefrite membranosa decorrente de imunocomplexos HBeAg/Anti-HBe.
- Caso clínico: Risco de cronificação de HBV em recém-nascido infectado no parto
- O risco de cronificação é extremamente elevado (aproximadamente 90%), decorrente da imaturidade da resposta imune celular neonatal.
- Caso clínico: Paciente com HBsAg positivo, Anti-HBc IgM positivo e ALT 2000 U/L
- Diagnóstico compatível com Hepatite B aguda; conduta imediata envolve monitoramento de coagulograma para afastar falência hepática.
- Caso clínico: Paciente assintomático com HBsAg negativo e Anti-HBs positivo isolado
- Indivíduo vacinado contra o vírus da hepatite B com resposta imunológica protetora adequada.
- Caso clínico: Gestante HBsAg positiva e HBeAg positiva no terceiro trimestre
- Elevado risco de transmissão vertical; exige profilaxia no recém-nascido com vacina e imunoglobulina específica (HBIG) nas primeiras 12 horas.
- Caso clínico: Paciente com hepatite aguda apresenta confusão mental e RNI 2,2
- Quadro de hepatite fulminante aguda; requer internação imediata em UTI e avaliação prioritária para transplante hepático de urgência.
- Papel do interferon alfa no tratamento da infecção por HBV
- Induz estado antiviral inespecífico nas células, inibe a síntese proteica viral e potencializa a resposta imune celular citotóxica.
- Principal via de dano tecidual na esteatofibrose associada ao HBV crônico
- Ativação sustentada de células estreladas por citocinas pró-inflamatórias (TGF-beta), depositando colágeno tipo I nos espaços perisinusoidais.
- Prevenção pós-exposição percutânea ao HBV em profissional suscetível
- Administração de imunoglobulina hiperimune contra hepatite B (HBIG) associada ao início imediato do esquema vacinal.
- Papel do vírus da hepatite Delta (HDV) em relação ao HBV
- O HDV é um vírus defectivo de RNA que necessita do envelope proteico do HBsAg para penetrar e infectar os hepatócitos.
- Caso clínico: Paciente com HBV crônico desenvolve nódulo hepático sem cirrose
- O HBV é oncogênico direto por integrar fragmentos ao genoma do hospedeiro, podendo originar carcinoma hepatocelular mesmo antes de instalar cirrose.
- Fator histológico que define cirrose hepática pós-hepatite crônica
- Formação de nódulos regenerativos de hepatócitos circundados por septos fibrosos difusos com desorganização da arquitetura vascular lobular.