Sangramentos da Primeira Metade da Gestação
Estudo sobre os sangramentos da primeira metade da gestação, incluindo abortamento, gravidez ectópica e doença trofoblástica, voltado para estudantes e médicos.
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- Sangramento da primeira metade da gestação: definição temporal
- Sangramento vaginal que ocorre antes de completar 20 a 22 semanas de idade gestacional (ou feto com peso menor que 500g).
- Principais etiologias do sangramento da primeira metade
- Abortamento, gestação ectópica e doença trofoblástica gestacional (mola hidatiforme).
- Definição de abortamento
- Interrupção da gestação antes de 20 a 22 semanas ou eliminação de concepto pesando menos de 500g.
- Classificação cronológica do abortamento: precoce vs tardio
- Precoce ocorre até a 12ª semana; tardio ocorre entre a 12ª e a 20ª-22ª semana gestacional.
- Ameaça de abortamento: achados clínicos
- Sangramento vaginal leve a moderado, colo uterino fechado, útero compatível com a idade gestacional e conceptos vivos.
- Ameaça de abortamento: conduta habitual
- Repouso relativo, analgesia se dor leve, abstinência sexual e reavaliação clínica e ultrassonográfica periódica.
- Abortamento inevitável: conceito
- Quadro hemorrágico e cólicas uterinas intensas, acompanhado de orifício cervical interno dilatado, sem eliminação de restos.
- Abortamento incompleto: apresentação clínica
- Sangramento moderado a volumoso, colo pérvio e eliminação parcial de produtos da concepção, com restos intrauterinos.
- Abortamento completo: características
- Eliminação total do feto e anexos, orifício cervical fechado ou em fechamento, cólicas cessadas e endométrio fino à ecografia.
- Abortamento retido: definição
- Morte embrionária ou fetal mantida na cavidade uterina sem expulsão espontânea por semanas; colo fechado e ausência de dor intensa.
- Critério ultrassonográfico para saco gestacional anembrionado
- Diâmetro médio do saco gestacional maior ou igual a 25 mm sem presença de vesícula vitelínica ou embrião visível.
- Critério de óbito embrionário pelo comprimento cabeça-nádega (CCN)
- CCN maior ou igual a 7 mm sem detecção de batimentos cardioembrionários na ultrassonografia transvaginal.
- Abortamento infectado / séptico: manifestações
- Febre, sangramento vaginal com odor fétido, dor pélvica intensa, colo pérvio e dor à mobilização uterina.
- Abortamento infectado: conduta imediata
- Internação, antibioticoterapia de amplo espectro intravenosa e esvaziamento uterino rápido após início dos antibióticos.
- Aspiração Manual Intrauterina (AMIU): indicação típica
- Esvaziamento uterino no abortamento incompleto com útero menor que 12 semanas, sendo método seguro e com menor risco de perfuração.
- Curetagem uterina: principais riscos associados
- Perfuração uterina, hemorragia, infecção pélvica e formação de sinéquias uterinas (Síndrome de Asherman).
- Uso de misoprostol no abortamento retido
- Análogo de prostaglandina E1 utilizado para promover contratilidade uterina e amolecimento cervical para expulsão ou pré-esvaziamento.
- Investigação de abortamento habitual: quando indicar
- Recomendada após 2 ou 3 perdas gestacionais espontâneas consecutivas.
- Síndrome antifosfolípide (SAF) e perdas gestacionais
- Causa trombofílica autoimune associada a abortos de repetição, tromboses e presença de anticoagulante lúpico ou anticardiolipina.
- Incompetência istmocervical: características
- Dilatação cervical indolor no 2º trimestre levando a abortos tardios sem cólicas proeminentes prévias; tratada com cerclagem uterina.
- Gestação ectópica: definição
- Implantação e desenvolvimento do blastocisto fora do revestimento endometrial normal da cavidade uterina.
- Localização mais frequente de gestação ectópica
- Tuba uterina (porção ampular em mais de 70% a 80% dos casos tubários).
- Tríade clínica clássica da gestação ectópica
- Atraso menstrual (amenorreia), dor abdominal ou pélvica e sangramento vaginal escuro em pequena quantidade.
- Fatores de risco para gestação ectópica
- Cirurgia tubária prévia, DIP (doença inflamatória pélvica), ectópica prévia, tabagismo, reprodução assistida e uso de DIU.
- Sinal do grito de Douglas (Sinal de Proust)
- Dor intensa à palpação ou mobilização do fundo de saco posterior de Douglas, comum no abdome agudo hemorrágico por gravidez ectópica rota.
- Gestação ectópica íntegra vs rota
- Íntegra: paciente hemodinamicamente estável e dor localizada. Rota: choque hipovolêmico, hemoperitônio maciço e peritonite.
- Zona discriminatória do beta-hCG na ultrassonografia transvaginal
- Valor de beta-hCG (geralmente entre 1.500 e 2.000 mUI/ml) a partir do qual o saco gestacional intrauterino deve ser visível.
- Critérios para tratamento clínico da ectópica com metotrexato (MTX)
- Estabilidade hemodinâmica, massa anexial menor que 3,5 a 4 cm, ausência de BCF e beta-hCG idealmente menor que 5.000 mUI/ml.
- Mecanismo de ação do metotrexato (MTX)
- Antagonista do ácido fólico que inibe a di-hidrofolato redutase, interrompendo a síntese de DNA e proliferação trofoblástica acelerada.
- Conduta cirúrgica na gestação ectópica rota com choque
- Laparotomia exploradora de urgência com salpingectomia para controle imediato da hemorragia e ressuscitação volêmica.
- Salpingostomia vs salpingectomia na gestação ectópica
- Salpingostomia preserva a tuba (risco residual de trofoblasto persistente); salpingectomia remove a tuba acometida.
- Doença Trofoblástica Gestacional (DTG): espectro
- Grupo de patologias da proliferação celular trofoblástica que inclui mola hidatiforme, mola invasora, coriocarcinoma e PSTT.
- Mola hidatiforme completa: cariótipo e origem
- Mais frequentemente 46,XX de origem puramente paterna (fecundação de óvulo anucleado por espermatozoide duplicado).
- Mola hidatiforme parcial: cariótipo e origem
- Tipicamente triploide (69,XXY ou 69,XXX), originada pela fertilização de óvulo normal por dois espermatozoides (dispermia).
- Presença de feto na mola: completa vs parcial
- Ausente na mola completa; frequentemente presente (porém malformado e inviável) na mola parcial.
- Sinais e sintomas clássicos de mola hidatiforme
- Sangramento em borra de café ou suco de ameixa, hiperêmese gravídica precoce, útero maior que o esperado e pré-eclâmpsia precoce.
- Aspecto ultrassonográfico típico da mola hidatiforme completa
- Padrão em flocos de neve, tempestade de neve ou vesículas em cacho de uva no interior da cavidade uterina.
- Cistos tecaluteínicos na mola hidatiforme
- Cistos ovarianos bilaterais volumosos induzidos pela estimulação de níveis maciçamente elevados de beta-hCG sérico.
- Conduta padrão para esvaziamento na mola hidatiforme
- Vácuo-aspiração intrauterina (aspiração elétrica ou manual), com envio do material obrigatoriamente para exame anatomopatológico.
- Seguimento pós-molar do beta-hCG: objetivo principal
- Monitorar a queda dos títulos até a negativação semanal para rastrear precocemente progressão para neoplasia trofoblástica gestacional.
- Critérios de persistência / malignização pós-molar (FIGO)
- Platô em 4 dosagens de beta-hCG em 3 semanas, ou ascensão em 3 dosagens em 2 semanas, ou diagnóstico histológico de coriocarcinoma.
- Profilaxia da aloimunização Rh com imunoglobulina anti-D
- Obrigatória em mulheres Rh negativo não sensibilizadas (Coombs indireto negativo) que apresentem sangramentos da 1ª metade.
- Dose de imunoglobulina anti-D no primeiro trimestre
- Geralmente 150 mcg (ou 300 mcg dose padrão) administrada por via intramuscular dentro de 72 horas do evento hemorrágico.
- Hematoma retrocoriônico / subcoriônico
- Coleção hemática entre o córion e o miométrio; achado frequente de sangramento com embrião vivo de bom prognóstico habitual.
- Pólipo cervical e ectopia durante a gestação
- Causas cervicais benignas frequentes de sangramento genital de pequena intensidade após relação sexual ou exame ginecológico.
- Sinal de Cullen na gravidez ectópica rota
- Equimose periumbilical resultante da difusão de sangue retroperitoneal ou intraperitoneal maciço até o tecido subcutâneo.
- Evolução dos títulos de beta-hCG em gestação intrauterina tópica inicial
- Espera-se duplicação ou aumento de pelo menos 53% a cada 48 horas no início do primeiro trimestre.
- Coriocarcinoma gestacional: características
- Tumor maligno epitelial trofoblástico altamente invasivo e anaplásico, com rápida disseminação hematogênica, especialmente para pulmões.
- Recomendação contraceptiva após esvaziamento molar
- Uso de contracepção eficaz (como anticoncepcionais orais) por pelo menos 6 meses para evitar confusão no seguimento do beta-hCG.
- Primeira conduta no choque hemorrágico obstétrico da 1ª metade
- Garantir vias aéreas, dois acessos venosos calibrosos, expansão com cristaloides isotônicos e tipagem com reserva de hemoderivados.